“Bandido é bandido porque quer”

"Bandido é bandido porque quer"

“…não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o SENHOR? Ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus” (Pv 30: 7–9)

Acredito que você ja tenha ouvido essa frase: “todo bandido é bandido porque quer”. Estou certo que você também já ouviu o seu oposto: “a falta de oportunidade de vida é a causa exclusiva da criminalidade”.

Em geral, essa discussão tem a ver com a antropologia de quem fala. Se o conceito sobre o ser humano é pessimista (o homem é mau), toda a responsabilidade pela conduta criminosa é posta sobre os ombros de quem cometeu o crime, eliminando a culpa coletiva. Se o ponto de vista sobre a natureza humana é otimista (o homem é bom), toda a carga de responsabilidade é posta sobre os ombros da sociedade, eliminando assim a responsabilidade do indivíduo.

Não conheço uma só pessoa que tenha mostrado consistência intelectual ao escolher um lado desse debate. Se relativiza em todos os casos a responsabilidade do indivíduo, o faz sempre às expensas de causas que lhe são caras. Elimina a culpa do bandido morador de favela, por exemplo, mas quer a morte do religioso conservador, e sente náusea ao saber que uma criança foi vítima de pedofilia.

Se nega a responsabilidade coletiva, tem de culpabilizar ao que, por exemplo, no genocídio de judeus levado a cabo pelo exército nazista -mentiu para salvar, roubou para sobreviver, resistiu para deter o opressor-; e inocentar os milhões que deram suporte direto ou indireto ao regime.

Precisamos afirmar ambas as verdade a fim de elaborarmos planos de segurança pública que não sejam românticos, mas sim capazes de apresentar propostas simétricas, que tratam não apenas dos sintomas, mas também das causas da patologia social: os seres humanos são responsáveis por suas ações, contudo, são propensos a fazer o que não fariam quando provocados.

Há sociedades cuja cultura atua como obstetra da crime. Fosso intransponível entre abastados e necessitados, desrespeito a direitos civis, políticos e sociais, fome, desemprego, podem fazer parte do conteúdo da oração que tomei como base para esse artigo: “… ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus”.

Ao descrever a resposta dos escravos africanos que, arrancados do seu continente, para o Brasil vieram a fim de serem vistos e tratados como propriedade dos seus senhores, a historiadora Lilia Schwarcs declara: “… escravizados e escravizadas reagiram… mataram seus senhores e feitores, se aquilombaram, suicidaram-se, abortaram, fugiram, promoveram insurreições de todo tipo e revoltas dos mais diferentes formatos”.

É evidente que a cultura do “capitão do mato” é a mais presente e disseminada no nosso país, cuja senha para candidato a cargo público se eleger é a declaração que não dará vida boa para bandido.

A raiz do problema está na nossa história. O regime da escravidão moldou o caráter do brasileiro. Somos povo que convive há séculos com o paternalismo, o abuso de autoridade, a desigualdade, a violência, a estratificação social, a exploração da mão de obra da classe trabalhadora, o patrimonialismo.

Entendo profundamente a indignação de milhões que não suportam mais conviver com tamanha violência. Num ponto, todos estamos de acordo, algo precisa ser feito a fim de que esse banho de sangue cesse.

Carecemos, contudo, de um Estado duplamente forte: capaz de usar -dentro do parâmetro legal- a força mediada pela inteligência a fim de dissuadir a prática do crime, e que atue profilaticamente a fim de evitar que pessoas façam o que não fariam se não fossem provocadas.

Afirmo, portanto, a responsabilidade humana. Mas, não nego a sua e a minha responsabilidade. Estamos há centenas de anos usando os mesmos métodos, baseados na força bruta, sem pensarmos nas razões pelas quais somos país tão violento.